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Trigo produzido em São Paulo ganha qualidade

Data: 20/04/2017

Christian Saigh, do Sindustrigo: variedades mais apropriadas para as indústrias

Longe de ser uma referência na produção de trigo – cultura própria de climas temperados -, São Paulo tem se voltado ao cultivo de variedades do cereal de alta qualidade para abastecer as indústrias instaladas no Estado. Foi a saída que os agricultores encontraram para garantir demanda por seu produto em um período de sobreoferta dentro e fora do país.

A maior aposta em qualidade é parte de uma estratégia definida há cerca de três anos. O movimento levou à reativação da Câmara Setorial do Trigo paulista, e a seleção das variedades cultivadas no Estado se tornou mais rígida – o número total passou de 50 para 15.

"Não eram necessárias tantas variedades e elas não atendiam à demanda da indústria. O que importa é ter melhor qualidade", afirma Christian Saigh, presidente do Sindicato da Indústria do Trigo no Estado de São Paulo (Sindustrigo), entidade que tem coordenado o trabalho com os agricultores.

O esforço também permitiu um aumento da produção paulista. Ainda que permaneça modesta, a colheita no Estado dobrou em três safras e alcançou 240 mil toneladas no ciclo 2015/16, conforme dados do Sindustrigo. A demanda para processamento em São Paulo chega a 1,8 milhão de toneladas.

Historicamente, o trigo de melhor qualidade do país, ideal para a panificação, é cultivado no Paraná. Na média, "perde" apenas para o cereal semeado na Argentina e para o trigo da América do Norte, preferidos pelos moinhos de São Paulo. Além de atenderem a indústria de alimentos, os moinhos vendem farinhas ao segmento de panificação e ao comércio, destinos de cerca de metade das vendas.

Para Saigh, com a melhora de qualidade registrada nos últimos anos, o trigo paulista já compete em pé de igualdade com o paranaense. E é economicamente mais vantajoso, uma vez que a distância das áreas produtoras em relação ao parque moageiro é menor.

Além disso, o cereal paulista passou a ter uma vantagem tributária em relação ao paranaense. Desde março, o Paraná elevou de 2% para 8% a alíquota de ICMS sobre o produto que sai do Estado em direção a São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Os produtores, entretanto, não encaram essa alteração tributária como relevante para a safra que começará a ser plantada neste mês. "Os moinhos ainda não repassaram essa vantagem para o nosso trigo, porque o preço está muito baixo", diz Almerindo Vidilli Junior, gerente comercial de cereais da Cooperativa Holambra, que reúne produtores da região de Avaré. Mas ele concorda que a medida poderá começar a fazer diferença a partir da próxima safra.

Luiz Mariotto, gerente administrativo e financeiro da Cooperativa Agrícola de Capão Bonito, é mais pessimista. "O produtor do Paraná não tem muita opção para vender trigo. Para igualar o preço do trigo de São Paulo, ele vai compensar na negociação. E são só 8% [de alíquota], isso no preço final não faz diferença".

Mas a produção de um trigo de maior qualidade garante, no mínimo, liquidez, já que a baixa qualidade costuma causar a devolução de volumes consideráveis pelas indústrias. "Se tenho um trigo tipo 2 ou tipo 3 [menos nobre que o usado para panificação], muitas vezes a indústria nem quer. Aí tem que vender mais barato", afirma Mariotto.

É preciso realçar, também, que produzir trigo de qualidade superior custa mais caro. "Quanto mais você busca melhorias, maior a suscetibilidade a doenças, por exemplo. Tem produtor colhendo um cereal excelente, mas se chove a 30 quilômetros o trigo já fica com doença. Isso aumenta o custo", observa Vidilli Junior, da Cooperativa Holambra.

Fonte: Valor 

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